O RIO MÃE LUZIA

Página

O RIO MÃE LUZIA ANTES DO “PROGRESSO” INDUSTRIAL

                     rio mae luzia sideropolis

Na historiografia regional, uma das obras mais importantes para se dimensionar o esplendor da biodiversidade natural no século XIX é “Colonos e Missionários Italianos nas Florestas do Brasil”, de Padre Luigi Marzano. Nos relatos do padre, a Mata Atlântica, com todo o seu hábitat natural, postava-se passiva para com as necessidades dos colonos imigrantes. Marzano destaca a exuberância das árvores da região na sua forma selvagem e identifica várias espécies, como: sobragi, tajuba, ipê, cabriúva, carvalho, peroba, cedro, garuva, canela, óleo, louro, guarapari, baguaçu. Luigi Marzano descreve, também, a diversidade de animais selvagens que povoavam a mata virgem, são eles: jaguar, puma, anta, jaguatirica, gato pardo, paca, cotia, tatu, coati, macacos, tamanduá, porco do mato, tatete, veado, cervo, graxaim, ouriço, zorrilho e as principais aves que abundavam por essa região eram: macuco, jacutinga, jacucaca, aranquã, uru, jaó, inhambu, papagaio. Salienta, ainda, que a região possuía uma infinidade de répteis e serpentes, bem como rios ricos em peixes, nomeando com destaque a tainha, traíra, jundiá, cascudo e a enguia.

Do ponto de vista ambiental, a obra do Padre Marzano representa um marco divisório entre dois momentos históricos: o antes e o depois do progresso industrial. O progresso civilizatório se viabiliza à custa da transformação e da destruição dos ecossistemas. É conhecido, na história mundial, o império de antigas civilizações que floresceram às margens úmidas e férteis de rios: os egípcios, às margens do Nilo e os povos da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates. Tal fato só demonstra o quão importante é a água e, principalmente, os rios para a humanidade. Na região sul de Santa Catarina, muitas cidades formaram-se às margens do rio Mãe Luzia. Portanto, evidenciar a história do rio Mãe Luzia é primeiramente acreditar que talvez, num futuro muito próximo, ter-se-á um curso com água renovada, um curso com água de um rio vivo.

O rio Mãe Luzia, pertencente à bacia hidrográfica do rio Araranguá, é o maior rio que perpassa a grande região de Criciúma. Ele já era conhecido muito antes da chegada dos imigrantes europeus, que se fixaram na região, no final do século XIX. De acordo com os relatos, observa-se que o rio, cujo nome foi batizado de Mãe Luzia, tinha, no passado, uma relação de vida com as comunidades que viviam nas proximidades. No início do século XIX, passaram pelo rio Araranguá ilustres viajantes. Hobold descreveu a visita de um famoso viajante europeu que teve a sorte de contemplar a beleza da foz do rio Araranguá: “Auguste de Saint’Hilaire, naturalista francês, nas suas andanças científicas pelo Brasil nos anos 1816 e 1822, ao percorrer a província de Santa Catarina em 1820, observou algo interessante e o registrou no seu diário de viagem. Disse ele que os catarinenses naquela época, tinham como consumo habitual em sua alimentação, o peixe e a farinha de mandioca. Utilizando uma carroça e um índio domesticado como fiel companheiro, transitou este cientista também por Araranguá, ainda bem despovoado com rumo ao Rio Grande de Sul. Nos primeiros dias de junho do mesmo ano, fez pernoite nas imediações de Barra Velha, hospedando-se na fazenda do major João Antônio Tavares, de Laguna. Naturalmente, nesta estada, como despedida de Santa Catarina, saboreou nas refeições acompanhadas de suculenta farofa, uns preciosos peixes capturados no rio Araranguá, que na época, desembocava nas proximidades”. [1]

O rio Araranguá foi fator determinante para a ocupação populacional em torno de seu curso e afluentes, servindo como caminho de integração e também como fonte importante de alimento, favorecendo, com isso, a subsistência de toda a população ribeirinha. Com suas águas cristalinas e uma temperatura adequada, era como um berço de criação que formava, nos seus ambientes físico, químico e biológico, uma proliferação de imensas variedades de vidas aquáticas.

No relatório de Pereira Campos, mencionado por João Leonir Dall’Alba [2], o rio Araranguá, que recebe uma grande massa de água de suas nascentes, junto da Serra Geral, apresenta um desenvolvimento em seu curso de mais de 30 milhas, aproximadamente 56 quilômetros, com largura e fundura o suficiente para navegar nele navios de grande porte. Relata, ainda, que as extraordinárias enchentes, em certas épocas do ano, alagavam e inundavam grandes extensões de terreno em suas margens e que os tornavam em extremos férteis e produtivos.

Sobre a origem do nome “Mãe Luzia”, Patarello se reportou da seguinte maneira: “rio Mãe-Luzia. Foi a velhinha Luzia, que lavava roupa nas águas dele, lá perto de Nova Veneza, que lhe deixou o nome. Tão boa era ela, tão meiga e materna que todos a chamaram Mãe Luzia e a ele acabaram por chamar rio Mãe Luzia”.[3] Essa versão é confirmada pela pesquisadora Otilia Arns, que é natural de Forquilhinha, município vizinho à cidade de Criciúma: “Nos tempos primitivos eram poucos os habitantes que, ao Norte de Forquilhinha, transitavam. Entre outros havia tropeiros que procuravam por “comes e bebes”. Ai algum caboclo dizia: “Lá na Mãe Luzia tem”. Com isso, segundo a versão popular de então, o rio ficou caracterizado como “rio Mãe Luzia”. [4]

Descendentes de italianos criaram a localidade de Rio Jordão, município de Siderópolis, ao lado do curso do rio Mãe Luzia. De acordo com o relato do senhor Mariano Scussel [5], o rio Mãe Luzia ainda no início da década de 1960, era um rio de água limpa e havia nele muitos peixes que saciavam a fome de muita gente. Scussel lembra que a pescaria era farta e que os tipos de peixes eram diversos, tais como: piava, cará, jundiá, traíra, asa-branca, cascudo e outros. Sobre o mesmo rio, o morador da localidade de Rio Jordão, o senhor Silvio Bonassa, descreve o que era o rio Mãe Luzia antes de receber a contaminação do carvão: “O rio Mãe Luzia é o maior rio da região, havia muito peixe. Olha o que nós pegávamos de peixe ali, não dava para acreditar. Ali era peixe de tudo quanto era tipo. Acredito que um rio igual ao rio Mãe Luzia, pra peixe, aqui na redondeza não existia. Tomávamos muitos banhos. Existiam alguns moinhos de farinha, descascadores de arroz e serrarias, tudo movido pelas águas do rio”. [6] Bonassa relata, ainda, que existiam muitas lontras pelo rio e era costume dele caçar esse animal de pele muito valiosa naquela época. 

 Os recursos naturais, na localidade de Treviso, local do nascimento do rio Mãe Luzia, são destacados por De Lorenzi: “Nova Treviso (hoje Treviso) era rica em recursos naturais. Os montes e vales repletos de animais, árvores e frutos. Certamente os olhos claros dos imigrantes iluminariam-se com a exuberância do verde e os sinais de riqueza. Os rios cheios de peixes forneciam alimentos e diversão e encantavam os imigrantes. A água límpida saciava a sede e servia para o banho. O recurso hídrico e a criatividade italiana produziram as serrarias e olarias que geravam as construções, e os engenhos, as atafonas e os alambiques que transformavam os frutos da terra domada em alimento e bebida. Tudo saía da terra e do trabalho”. [7]

                 A vazante do rio Mãe Luzia, na época da implantação da colônia de Nova Veneza, era muito expressiva e a travessia do rio somente era possível utilizando-se canoas ou aguardando os períodos de seca para transpô-lo. Bortolotto cita a narrativa do Tenente Vieira da Rosa a respeito do rio: “De Nova Veneza é possível viajar-se em canoas até a Vila do Araranguá, e é essa uma viagem divertida. Correndo grande parte do rio entre matas virgens, variadas devem ser as paisagens, as cenas imprevistas. Aqui é um veado que, perseguido procura um refúgio nas águas. Ali uma anta que, atormentada pelos calores, se banha voluptuosamente no fresco e cristalino liquido, além uma capivara que assustada, atira-se brutamente as ondas do rio e acolá uma ariranha mostra a cabeça fora d’água, indagando curiosa o que se passa na superfície. Os grandes vegetais miram-se no espelho líquido e, nos lugares mais estreitos, os galhos seculares se entrelaçam, servindo de ponte altíssima aos macacos e coatis. Outrora, e não ainda muitos anos, o viajar desse modo era um perigo. Os bugres, desalojados dos outros pontos, aí fizeram seu ultimo reduto, e tornados inimigos de nossa raça, em virtude das muitas perseguições que sofreram, não deixaram passar incólumes homens brancos e negros”. [8]

Contar a história de um rio é algo extremamente importante e na presente narrativa fala-se do rio Mãe Luzia, que é um bem natural, que fez e faz parte da vida de inúmeras pessoas. Como hoje, o rio apresenta um aspecto totalmente diferente do que foi no passado, serve como modelo para reflexão sobre o estado no qual se encontram os afluentes do rio Araranguá: “Antes de tudo, o rio Mãe Luzia é um rio de lembranças. Tão boas recordações que preenchem o tempo passado com lágrimas nos olhos dos mais velhos. Em Forquilhinha, (…) há uma relação tão íntima que ele chega a passar atrás da porta da cozinha de muitas casas. Foi assim que os mais antigos foram chegando e se aconchegando em suas barrancas. No tempo dos pioneiros, a natureza era farta. E o rio Mãe Luzia era tudo. Do rio vinham os muitos peixes, a água para beber, o banho que descansava no final de um dia de trabalho”. [9]

De certa forma, a morte do rio vem sendo substituída por um processo evolutivo de memórias e lembranças do que fora o rio antes da sua total destruição. Resta saber se a sociedade humana terá força e determinação suficiente para inverter essa lógica do progresso, construindo um novo modelo de desenvolvimento.

A região carbonífera está de luto, morreu há muito tempo, em nome do “progresso” humano, o maior presente que a natureza nos deu: O rio Mãe Luzia.

 

Nilso Dassi

Licenciado e Bacharel em História pela Unesc

nilsodassi@bol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FONTES UTILIZADAS:

 

ARNS, Otília. Forquilhinha 1912 – 2002: história e resgate da memória dos nossos antepassados. [S.I.: s.n.], 2003. 417 p.

BORTOLOTTO, Zulmar Hélio. História de Nova Veneza. Nova Veneza: Prefeitura Municipal de Nova Veneza, 1992. 337 p.

DALL’ALBA, João Leonir. Laguna antes de 1880. Documentário. Florianópolis: Editora Lunardelli, 1979. 175 p.

DE LORENZI, Zeide Carminati. Treviso ano 100: 1891 a 1991. Siderópolis: Prefeitura Municipal de Siderópolis, 1991.137 p.

HOBOLD, Paulo. A história de Araranguá. Complementada  e atualizada por Alexandre Rocha. Araranguá: [s.n.], 2005. 311 p.

MARZANO, Luigi. Colonos e missionários italianos na floresta do Brasil. Florianópolis: UFSC, 1985. 200 p.

PATARELLO, P. Giovanni Valdastico. Siderópolis (Nova Belluno): uma grande aventura. Caxias do Sul: Ed. Paulinas, 1963. 190 p.

RIO Mãe Luzia. Periódico Forquilhinha Hoje. Set./Out. 1992.

Mariano Scussel, nascido em 02/05/1932. Residente na localidade de Rio Jordão, Siderópolis – SC. Entrevista concedida em 26/08/2006.

Silvio Bonassa, nascido em 15/12/1933. Residente em Siderópolis – SC. Entrevista concedida em 26/08/2006.

 

 

 

 

 

 

 

 


[1] HOBOLD, 2005, p.280.

[2] DALL’ALBA, 1979, p.39.

[3] PATARELLO, 1963, p.75.

[4] ARNS, 2002, p.100.

[5] SCUSSEL, Mariano. Entrevista realizada em 26/08/06.

[6] BONASSA, Silvio. Entrevista realizada em 26/08/06.

[7] DE LORENZI, 1991, p.118.

[8] BORTOLOTTO, 1992. p.198 – 199.

[9] Periódico Forquilhinha Hoje – set/out. 1992. p. 2.

5 comentários sobre “O RIO MÃE LUZIA

  1. O meio ambiente da região carbonífera está insustentável, chega de vistas grossas, vamos colocar em prática as leis que protegem a natureza. Vamos buscar os responsáveis por estes crimes, e coloca-los na mira da lei, para que busquem recuperar estas áreas o mais breve possível.

  2. giovanni uggioni

    vou senpre com a familia neste rio,banhar-se e pescar algumas piavas,a agua e um cristal ….ate as minas começarem a poluir.vcs sabian q neste rio existe um tipo de cascudo q so existe neste costao.nao existe em outro local do mundo.ja foi materia de programa de televisao nacional.quem deveria lutar contra os estragos produzidos pelas minas seria os propios moradores do local.fica a fraze(SE CARVAO DESSE DINHEIRO PARA AS CIDADES,SIDEROPOLIS SERIA UMA FRANÇA,TREVISO UMA MILAO E CRICIUMA UMA DUBAI..)WWW.SONA-PESCARIA.BLOGSPOT.COM se possivel deichem um comentario.valeu……….

  3. Manoel da Silva

    Projeto natureza morta em Sideropolis,com os artistas daquele municipio,entrar em contato com secretaria de cultura.(pinturas em telas e esculturs)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s